Nos últimos meses tive a oportunidade de mediar agendas entre os setores público e privado sobre o
Caderno de Tipologias Urbanas Modulares do Programa Bairro Paulista: Cidades Sustentáveis, uma
ferramenta produzida pela Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Habitação do Estado de São Paulo
para orientar os gestores dos municípios sobre a importância de planejar espaços mais sustentáveis,
resilientes e atualizados frente às mudanças climáticas.
Trata-se de uma peça exemplar em sua missão: propor um novo pacto nacional para tornar os espaços
urbanos mais justos, democráticos e sustentáveis. É sobre isso que conversaremos neste artigo.
Dessa peregrinação, aprendi a refletir sobre a importância dos atos de inauguração de obras públicas,
eventos de suma importância para o bem-estar dos moradores e, igualmente relevantes, para a
credibilidade dos gestores.
Esses empreendimentos trazem consigo uma função social bem estabelecida – que por definição – deve
priorizar obras que gerem impacto positivo para o maior número de pessoas e promovam conexões com
os equipamentos públicos, sem abrir mão do investimento no diálogo com a população, que deve ser
priorizado neste tipo de agenda – é ali que os líderes olham no olhos de seus aliados e ouvem as críticas
de quem é divergente. Tudo isso é puro suco de democracia.
E os gestores que sabem explorar esse benefício implícito, tendem a ganhar mais rapidamente a
confiança da população, e por consequência, administrar melhor os recursos e objetivos intrínsecos às
obras.
A partir desta lógica, defendo a tese que a engenharia é a peça-chave para acertar no plano de entregas
de cada município, em especial, nas etapas de planejamento, execução e comunicação final – onde a
função social precisa ser explicitada, ou se preferir, onde a execução assume o lugar do discurso, para
entregar resultados reais.
Aliás, as métricas das engenharias, se aplicadas com sobriedade – considerando revisão por pares e
comitês de avaliação – podem transformar esses eventos em experiências de rigor técnico e abertura
política entre líderes e população.
Em resumo: acertar no plano de entregas de obras públicas é a maneira mais eficiente de facilitar o
trabalho das secretarias municipais que precisam lidar com inúmeras demandas, insatisfações e
urgências em suas localidades, principalmente em tempos de desequilíbrio climático, acidentes naturais
ou temporada de férias, para ilustrar três poderosos exemplos de sazonalidades que alteram a vida das
cidades.
O exemplo do Caderno de Tipologias é um ponto de partida organizado e testado a vera no grande e
diversificado território paulista, e por isso o escolhi. E que fique claro: não estamos falando de uma
panaceia.
Não existe fórmula pronta, muito menos um documento mágico que irá resolver questões estruturais
pura e simplesmente pela execução de suas premissas. Longe disso. Cada obra conta uma história.
E a engenharia assegura que este enredo seja dotado de referências técnicas, respeito às normas e um
tipo de orgulho advindo da boa execução do que foi prometido. É nisto que acredito fielmente.
Autor: Vinícius Marchese é presidente do Confea. Engenheiro de formação, é um dos maiores especialistas do
Brasil em políticas públicas para as áreas de urbanismo, infraestrutura e planejamento.
