A construção civil, termômetro tradicional de crescimento ou baixa da economia brasileira, prepara-se para enfrentar um novo período de produtividade moderada. As projeções divulgadas no começo de dezembro pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), em parceria com o Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo (Sinduscon-SP), indicam um avanço de apenas 1,8% no Produto Interno Bruto (PIB) em 2025. A performance ficou abaixo dos 2,2% previstos anteriormente. Até o final deste ano, a expectativa do setor é de um avanço de 2,7%. Os motivos são variados, mas vou abordar os principais. O primeiro vem dos juros elevados, que comprimem o orçamento doméstico e nos forçam a fazer escolhas prioritárias. O segundo motivo está no recuo das compras de materiais de construção, fator que age como um freio brusco no comércio de reformas e pequenas obras. Na camada estrutural do problema, temos a falta de jovens renovando o segmento somada à captura de candidatos por outros nichos, desses engenheiros que iriam, vejam só, atuar nas atividades que erguem, reformam e reinventam o espaço público e privado. É obrigatório notarmos que a queda no conjunto futuro de profissionais – que poderia liderar o setor – vai impactar diretamente na recuperação para os próximos anos. No Brasil, para formar um pequeno grupo de 35 engenheiros, ao final de quatro anos de estudos, primeiro, é preciso lotar uma sala de nível superior com um pouco mais de 100 alunos, em média. Esse é o índice sutil da evasão, que ano a ano, derruba a margem disponível de engenheiros que seria capaz de aquecer esse mercado. E a desistência de jovens – por falta de engajamento do ecossistema na promoção de modelos de carreira que dialogam com as inovações do mundo atual, por exemplo -, é um sintoma de falhas estruturais mais generalizadas. E o que mais surpreende é o fato de que o Brasil oferece ótimas oportunidades para quem deseja atuar nessas áreas. É um curioso paradoxo. O panorama para os engenheiros ativos é extremamente positivo. Uma pesquisa nacional do Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea), que ouviu mais de 48 mil profissionais, revela que 92% estão em exercício e, destes, 78% atuam em sua área de formação. Portanto, a formalização é alta entre as profissões de Engenharia, e a satisfação com a carreira chega a 67%; os rendimentos superam a média nacional, com crescimento notável a partir dos 30 anos de idade. Porém, essa é uma parte da história. Enquanto a geração atual está empregada e produtiva, os dados apontam para um estreitamento na capacidade de formação de novos talentos. Estamos diante de uma crise silenciosa, onde a oferta de trabalho, serviços e comércio terá poucos talentos no futuro. A construção civil, mesmo desacelerada, vai precisar de mão de obra especializada. E os custos do processo de formação tendem a crescer à medida que o PIB da área recuar. O problema é real e a escassez de profissionais qualificados foi apontada pelo Sondagem da Construção, da FGV, como o maior entrave enfrentado pelo mercado. Finalizo a minha reflexão reforçando que grandes programas governamentais de infraestrutura e habitação, como o Minha Casa Minha Vida, dependem da chegada de novos engenheiros ao mercado para sustentar a agenda de entregas. Em resumo: a não renovação de capital humano para a infraestrutura é um atestado de imobilização. Como investir em estradas, portos, energia e saneamento se a principal força intelectual por trás desses projetos está em declínio numérico? Como superar discretas falhas iniciais, que resultam em enormes acúmulos de problemas lá na frente? Parte dessas mudanças está no ensino superior e na forma como as universidades ensinam e engajam os estudantes. Para estimular as novas metodologias, que aliam conhecimento científico à prática, o Crea-SP realizou uma parceria inédita com o Instituto de Tecnologia e Liderança (INTELI) para criar o FuturoLab. O programa rompe com a lógica tradicional das aulas expositivas ao colocar alunos diante de um desafio concreto e de alta complexidade logo no início da jornada. O Problem-Based Learning (PBL), ou Aprendizado Baseado em Projetos, é o eixo estrutural da formação no INTELI. No lugar de acumular conteúdos esperando aplicá-los “um dia”, os alunos enfrentam demandas concretas desde o início da graduação, construindo repertório técnico e autonomia simultaneamente. Durante 10 semanas, uma turma ficou dedicada em buscar soluções para desenvolvimento de um protótipo que pudesse identificar irregularidades na emissão das Anotações de Responsabilidade Técnica (ART) – documento obrigatório para qualquer atividade desenvolvida nas áreas de Engenharia, Agronomia e Geociências. A iniciativa mostra aos jovens, de forma concreta, por que essas profissões importam. A missão do Sistema Confea/Crea passa pela responsabilidade de estar à frente do processo de transformação das universidades e do mercado, para atrair as novas gerações, e para que os setores público e privado entendam a necessidade de investir em formação de pessoas, propondo projetos, alianças, eventos e diálogos, na busca conjunta pela solução. Persistir na renovação de talentos no Brasil, independentemente das dificuldades estruturais, é o caminho mais seguro a seguir. Lígia Mackey é engenheira civil com mais de 30 anos de atuação no mercado de construção civil e presidente do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de São Paulo (Crea-SP). A realidade apresentada no cenário nacional também pode ser observada em cidades do interior, como Ituverava e toda a nossa região. O desenvolvimento econômico local está diretamente ligado à atuação de engenheiros, agrônomos, geocientistas e demais profissionais da área tecnológica, responsáveis por projetos de infraestrutura, habitação, saneamento, mobilidade urbana, irrigação, energia, produção agrícola e desenvolvimento industrial.Em uma região fortemente impulsionada pelo agronegócio e pela construção civil, a necessidade de profissionais qualificados cresce a cada ano. Obras públicas e privadas, expansão urbana, melhorias na malha viária, modernização das propriedades rurais e investimentos em tecnologia dependem do conhecimento técnico desses profissionais para garantir segurança, eficiência e sustentabilidade.Ao mesmo tempo, observa-se uma preocupação crescente com a redução do número de jovens interessados em seguir carreiras ligadas à Engenharia, Agronomia e Geociências. Essa realidade representa um desafio para o futuro, pois a falta de renovação dos quadros profissionais poderá impactar diretamente a capacidade de crescimento e inovação dos municípios.Por isso, torna-se fundamental aproximar os estudantes das profissões tecnológicas, demonstrando que essas carreiras oferecem excelentes oportunidades de desenvolvimento profissional e desempenham papel essencial na transformação da sociedade. Investir na formação de novos talentos é investir no futuro das nossas cidades, na competitividade da nossa economia e na qualidade de vida da população.
Por Ligia Mackey
