Como crescer sem engenheiros?

Jorge J. Okubaro

Houve tempo em que ser engenheiro era o sonho de boa parte dos jovens que podiam almejar o ingresso numa faculdade de prestígio. Engenharia, medicina e direito eram os cursos preferidos dos vestibulandos. Os tempos parecem ter mudado muito, pelo menos em um caso: o número de estudantes de engenharia vem diminuindo há alguns anos, mas a demanda por esses profissionais continua a crescer. Já há quem preveja, num futuro não muito distante, a escassez de engenheiros para preencher as 350 mil ou 400 mil vagas que se abrirão no mercado de trabalho brasileiro. Dá para imaginar um país acompanhar o progresso mundial sem dispor de engenheiros de diferentes áreas e em número suficiente?

Houve tempo também em que estudantes de engenharia em universidades insuspeitadas eram considerados bitolados. Como define o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, bitolado é aquele que tem ideias, opiniões ou conhecimentos estreitos, rígidos, limitados, ultrapassados; quadrado, careta. Nos tempos do Conjunto Residencial da USP (Crusp) na Cidade Universitária, de 1963 a 1968, estudantes da Escola Politécnica que ali viviam eram tratados desse modo com frequência por alunos de outras áreas do conhecimento. Não é improvável que continuem sendo assim tratados.

Se havia motivo para esse tipo de tratamento talvez fosse o fato de que, nos primeiros anos do curso, os politécnicos, como são chamados os estudantes de engenharia da Poli, dedicavam-se mais às disciplinas vinculadas às ciências exatas, como matemática e física, o que lhes deixava menos tempo para outras atividades, outras reflexões e outras leituras. A matemática, assim como também a química em menor escala, é parte essencial dos cursos de engenharia.

O País que se destacar em ensino de matemática terá maiores condições de acompanhar sucessivas pesquisas internacionais. No mais recente Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), realizado pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o Brasil caiu consecutivamente e ocupa entre 81 países no ensino da matemática a 65ª posição (o País vai ainda pior em leitura e ciências). Eventual deficiência em conhecimento de matemática e de ciências tende a tornar ainda mais penosa a tarefa de acompanhar adequadamente um curso no qual disciplinas como essas são exigências básicas.

A má qualidade do ensino dessas matérias nos níveis fundamental e médio dificulta e explica também o fato de que, no Brasil, nosso índice de evasão nos cursos de engenharia seja mais de duas vezes maior que o observado em outros países.

Como mostrou reportagem recente do Estado (Altas taxas de evasão preocupam cursos de engenharia, Estadão, 16/9/99), nos países desenvolvidos, a evasão nos cursos de engenharia, segundo dados da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), é de 16% em média, contra 34% no Brasil. Ou seja, nossa taxa é mais que o dobro.

Salvadoras são as iniciativas de universidades que desenvolvem programas de reforço para estudantes com deficiências nessas disciplinas. Mas o problema é grave e se não for enfrentado de modo consistente, o Brasil continuará correndo atrás do prejuízo.

Não é difícil entender por que, entre os jovens, o interesse pela engenharia parece decrescente. O avanço do ensino a distância (menos exigido do que o curso de engenharia) e a percepção de que a carreira é desgastante, com jornada pesada e poucas compensações, contribuem para esse quadro. Em 2022, o salário médio de um engenheiro civil no Brasil era de R$ 7.000, muito baixo se comparado a países mais desenvolvidos.

Hoje o Brasil conta com cerca de 1 milhão de engenheiros registrados no Confea. Esse número representa pouco, considerando-se que o Japão, com 120 milhões de habitantes, tem cerca de 2 milhões de engenheiros, e a Rússia, com 145 milhões, tem 4 milhões.

Todos os casos de sucesso de desenvolvimento econômico foram puxados por engenheiros — da Revolução Industrial à China atual. Se não aumentarmos a formação e a valorização desses profissionais, o Brasil ficará para trás.